sábado, 19 de março de 2011

Programa da Disciplina: favor ler com atenção!!!!!

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CULTURAIS E MÍDIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO

Disciplina: Teorias da Análise do Discurso (EGA 003)
Professor: Benjamim Picado
Horário: 5as feiras, de 10 às 13:00
Local: Sala 02 – IACS/UFF (Ala da Pós)

Modos de Ver/Interpretar Imagens:
um percurso pelas teorias do discurso visual
(Semiótica Visual, Estética e Ciências da Arte)

Apresentação: Há uma rica tradição de referências teóricas dedicadas ao problema da interpretação das mensagens visuais, disponível a uma avaliação retrospectiva no campo das pesquisas e estudos de fenômenos e processos da comunicação na cultura contemporânea: no que respeita as possíveis tinturas críticas que esta avaliação possa assumir, se reconhecem os tributos pagos por estes discursos ao modo pelo qual determinadas ramas das teorias semióticas trataram a questão dos regimes de significação das formas visuais.  Especialmente determinante destas orientações para a pesquisa é o modo como elas se esforçaram por trabalhar o legado dos saberes lingüísticos, que lhe serviriam de suposto fundamento. Numa mirada sobre os fundamentos epistemológicos deste programa de estudos, nota-se um esforço constante por justificar a validade da pesquisa sobre a imagem e seus sentidos, como exclusivamente restrita ao modo como as ferramentas de descrição e análise dos fenômenos lingüísticos se tornaram operatórias, em sua aplicação ao universo consideravelmente distinto das manifestações visuais.

Tomemos em destaque, apenas como ilustração deste ponto, a posição influencial das idéias de Roland Barthes acerca de uma possível semiologia das imagens visuais, logo no início de sua conhecida “aventura semiológica”: encontraremos no percurso do argumento barthesiano alguns dos elementos mais caros à orientação que a marcará a análise da imagem, sub specie semioticæ. Nesta perspectiva de análise, a concepção mesma da significação visual parece subtrair à imagem seu particular aspecto fenomenológico e material de sentido (como manifestação originária de uma pura presença dos objetos para a percepção comum, manifesta através das formas visuais de sua admissão para a compreensão): de fato, se tomarmos em causa o caráter exemplar das idéias barthesianas e o programa de pesquisas que elas insinuam, podemos identificar neste argumento a idéia central, expressamente manifesta pelo próprio Barthes, da impossibilidade última de um sistema de signos baseado em unidades puramente analógicas.

O que é especialmente notável, quando retomamos alguns destes textos em retrospectiva, é o fato de estas indicações semiológicas tomam os fenômenos da cultura de massa como objetos principais de suas reflexões, além de apontarem para o velho problema das relações entre a significação e a discursividade, menos na perspectiva tradicional da boa formação (lógica e gramatical) dos enunciados, mas agora, no plano das estratégias textuais de várias ordens (retóricas, poéticas, narrativas), que recolheriam em seu âmbito até mesmo as manifestações propriamente visuais da cultura de nossos dias. Como veremos mais tarde, à luz das considerações críticas de Umberto Eco, estas primeiras concepções semiológicas sobre os fundamentos da significação do universo visual, constituídas em ferramentais analíticos de primeira ordem, incorreram com bastante frequência em determinados dogmas teóricos de aproximação ao fenômeno do iconismo visual e de seu regime mais específico de significação.

Dada uma tal perpsectiva mais crítica de abordagem da discursividade própria à imagem, seus materiais icônicos deverão então manter certa independência com respeito aos padrões que definem o funcionamento de outros modelos da significação (especialmente, no caso das abordagens semióticas, com respeito às estruturas básicas de sentido nas linguagens naturais): tudo isto significa, de um lado, que devemos considerar, com alguma suspeita, o largo predomínio que as teorias da significação têm exercido, especialmente no campo da comunicação, para falar sobre as formas e estruturas da produção do sentido discursivo, muito especialmente quando os materiais empregados nestas formas de comunicação não podem ser facilmente incorporados à estrutura do discurso enunciativo, por exemplo.

Em segundo lugar, devemos propor, ao menos no âmbito de uma hipótese de trabalho, uma matriz para geração de operadores de análise dos materiais icônicos, e que possa permitir ao exercício da investigação sobre estas formas de comunicação, um tipo de acesso mais pregnante às substâncias constituintes deste discurso: é com este espírito que nos aventuramos nas grandes linhas daquilo que poderia consistir numa abordagem perceptualista ou ecológica dos significados icônicos; nestas abordagens, consideramos que os materiais visuais constituem um fundamento material ao qual não se recomenda prescindir, quando da interrogação sobre como é que as imagens produzem um sentido especificamente discursivo e comunicacional.

Objetivos: Apresentar, numa visada panorâmica, algumas das principais vertentes que operam com a problemática da significação e da interpretação das mensagens visuais, no âmbito dos estudos sobre a comunicação; propomos uma maior ênfase naquelas abordagens que puderam gerar os operadores analíticos de base para a pesquisa sobre os modelos da discursividade visual, uma vez tomados o universo dos meios da comunicação visual como corpora empíricos da investigação. Propomos igualmente um conjunto de abordagens sobre fenômenos estruturalmente similares, oriundas do campo da estética e das ciências da arte, como metodologicamente alternativas às perspectivas semiológico-linguísticas que demarcaram, até aqui, a compreensão sobre o estatuto da discursividade próprio às mensagens visuais, ao menos no campo dos estudos sobre a comunicação.

Metodologia e Procedimentos: A disciplina será conduzida na forma de seminários, com apresentação dos textos e problemas da bibliografia básica pelos estudantes, procedida de uma exposição dos tópicos de cada encontro, pelo professor, com debate subseqüente com todos os estudantes. A avaliação se dará mediante a apresentação de trabalho monográfico, ao final da disciplina, versando sobre aspectos do universo temático exposto e discutido durante o semestre, levando também em conta aspectos do envolvimento nas atividades da disciplina, sob critérios e valores que serão discutidos oportunamente, em sala de aula.

Conteúdo Programático:

Unidade I: A primeira geração da semiologia visual: a “mensagem sem código” e a fotografia de imprensa; a retórica da imagem publicitária e o problema das narrativas visuais, em R. Barthes; a sintagmática do filme e o firmamento de uma semiologia do cinema, em C. Metz;

Unidade II: Duas versões da recapitulação crítica do estruturalismo semiológico nas teorias da imagem: para além da linearidade sintagmática dos ícones, os sistemas da “imagem-movimento” e da “imagem-tempo”, em G.Deleuze; a crítica da perspectiva semio-estruturalista das mensagens visuais, em U.Eco;

Unidade III: Do dispositivo de visualização às variáveis plásticas da discursividade visual: o argumento sobre uma ontologia fotográfica (P.Dubois e J.M.Schaeffer); discursos e contra-discursos da indexicalidade visual e o problema dos regimes da percepção e da crença nas imagens (J.Snyder e K.Walton).

Unidade IV: Do mistério do estilo ao lugar do espectador: o paradigma indicário e as aventuras da iconologia e da história da arte (A.Warburg); a pesquisa sobre as matrizes formais das escolas da representação, na tradição do formalismo de H.Wöllfflin; História da arte e psicologia da representação: o problema da interpretação da imagem em E.H.Gombrich; estilo representacional e intenção artística, em R.Wollheim e M.Baxandall.

Unidade V: Dos mistérios do estilo ao lugar do espectador: as bases de um argumento perceptualista sobre a representação pictórica; a informação visual e a ecologia da percepção, em J.J.Gibson; o problema da ontologia da representação e suas relações com os “modos de ver” pinturas, em R.Wollheim.

Bibliografia Básica:

Aumont, Jacques. “Cinema e linguagem”. In: A Estética do Filme (trad. Marina Appenzeller). Campinas: Papirus (1995): pp. 157,222;
Barthes, Roland. “A Escritura do visível”. In: O Óbvio e o Obtuso: ensaios críticos III. (trad. Lea Novaes). Rio: Nova Fronteira (1990): pp.  9, 42;
Baxandall, Michael. « Introduction : langage et explication ». In : Formes de l’Intention: sur l’explication historique des tableaux (trad. Yves Michaud). Paris : Jacqueline Chamon (1991) : pp. 21,36 ;
Bellour, Raymond. “A Interrupção: o instante” e “Seis Filmes (en passant)”. In: Entre Imagens: cinema, fotografia, vídeo (trad. Luciana A. Penna). Campinas: Papirus (1997): pp. 126,173;
Deleuze, Gilles. “Recapitulação das imagens e dos signos”. In: A Imagem-Tempo. (trad. Eloísa Ribeiro de Araújo). São Paulo: Brasiliense (1990): pp.;
Eco, Umberto. “O Olhar Discreto: semiologia das mensagens visuais”. In: A Estrutura Ausente: introdução à pesquisa semiológica (trad. Pérola de Carvalho). São Paulo: Perspectiva (1976): pp.  ;
Gombrich, E.H. “Introdução: a psicologia e o enigma do estilo”. In: Arte e Ilusão: estudos sobre a psicologia da representação pictórica. São Paulo: Martins Fontes (1995): pp. 2,32;
Guinzburg, Carlo. “De A. Warburg a E.H. Gombrich: notas sobre um problema de método”. In: Mitos, Emblemas, Sinais (trad. Federico Carotti). São Paulo: Cia das Letras (1990): pp. 41, 94;
Metz, Christian. “Problemas de donetação no filme de ficção”. In: A significação do Cinema (trad. ). São Paulo: Perspectiva (1972): pp.  ;
Wölfflin, Heinrich. “O Linear e o pictórico”. In: Conceitos Fundamentais da História da Arte (trad. João Azenha Jr.). São Paulo: Martins Fontes (1996): pp. 25, 98;
Wollheim, Richard. “What the artist does” e “What the spectator sees”. In: Painting as an Art. (1987): pp. 13, 100.

Cronograma (sujeito a eventuais alterações de percurso):

1. 17/03: apresentação do programa da disciplina e definição do calendário dos seminários;
2. 24/03: retórica da imagem e semiologia visual: os regimes textuais da imagem, em R.Barthes;
3. 31/03: o nível sintagmático da organização narrativa da imagem: a semiologia do cinema, em C.Metz;
4. 07/04: sentido visual e regimes da visão: os fundamentos estéticos da significação do iconismo: G. Deleuze;
5. 14/04: dois regimes fotográficos da duração na imagem: a interrupção do movimento no filme, em R.Bellour;
6. 28/04: sentido visual e regimes da visão: os fundamentos estéticos da significação do iconismo, em U.Eco;
7. 05/05: do dispositivo à significação das imagens: o caso das teorias do fotográfico (P.Dubois/J.M.Schaeffer);
8. 12/05: iconologia e o paradigma indiciário: questões de método na análise da imagem (A.Warburg/C.Guinzburg);
9. 19/05: a matriz plástica dos estilos pictóricos: abordagens formalistas da história da arte, em H. Wölfflin;
10. 26/05: mistérios do estilo e psicologia da representação pictórica: o modelo interpretativo de E.H.Gombrich;
11. 02/06: caminhos da intenção na representação visual: duas perspectivas de análise (R.Wollheim/M.Baxandall);
12. 09/06: entre a representação e a percepção: de volta a uma ecologia do pictórico (J.J.Gibson);
13. 30/06: ontologia da representação e modos de ver: do “ver-em” ao “ver-através” (R.Wollheim/K.Walton). 

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